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Espelho, espelho meu: adolescência e imagem distorcida

Foto do escritor: Patricia Vieira e Maria Clara Vieira
Patricia Vieira e Maria Clara Vieira
30 de jul.
7 min de leitura

Neste artigo, a psicanalista Patricia Vieira, do espaço Serivê, fala sobre as raízes da insatisfação corporal na adolescência, o impacto das redes sociais e o papel essencial dos pais nesse processo. Acompanhe!

A insatisfação com o próprio corpo é um tema urgente na saúde mental de crianças e adolescentes. Entre os padrões inalcançáveis das redes sociais e as transformações naturais da puberdade, muitos jovens se perdem na tentativa de se reconhecerem diante do espelho.

Quem nos ajuda a compreender essa questão é a psicanalista Patricia Vieira, do espaço Serivê. Com vasta experiência no atendimento de pacientes com transtornos alimentares e obesidade, ela oferece nesta entrevista uma análise sobre as raízes da distorção da imagem corporal e os caminhos possíveis para uma escuta mais acolhedora. Confira seu breve currículo:

  • Patricia Vieira – Pedagoga formada pela PUC-SP, psicopedagoga pelo Instituto Sedes Sapientiae e psicanalista, membro efetivo do Departamento de Formação em Psicanálise do mesmo instituto. 

  • Pós-graduada em Transtornos Alimentares pelo Instituto ESPE, Patricia também é organizadora do livro Medicação e medicalização e coautora de A escola para todos e para cada um e Campos clínicos, educacional e social: o pensamento de Silvia Bleichmar.

  • Atua como psicanalista clínica, supervisora clínica em psicanálise e professora do primeiro ano do curso Fundamentos da Psicanálise e sua Prática Clínica do Departamento de Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.

Para facilitar sua leitura, dividimos nosso texto nos seguintes tópicos:


Boa leitura!


Adolescente olhando para o espelho com expressão de insatisfação. Foto: Freepik.
O primeiro espelho do ser humano não é feito de vidro, mas do olhar, do toque e do afeto que recebemos desde o início da vida.

Insatisfação corporal em números e na escuta clínica

Dados recentes do IBGE revelam uma queda expressiva na satisfação com a própria imagem entre adolescentes de 13 a 17 anos: em 2019, 66,5% estavam satisfeitos; já em 2026, o índice caiu para 58%. Entre os insatisfeitos, as meninas são as mais afetadas, representando 36,1% desse grupo.

Para Patricia, esses números têm eco direto no que ela ouve em seu consultório. A profissional comenta que, ao atender pacientes com transtornos alimentares e obesidade, a distorção da imagem corporal surge como uma queixa recorrente, independentemente de gênero ou idade.

Mas o que faz com que a insatisfação corporal, muitas vezes iniciada na puberdade, acompanhe o sujeito por toda a vida? Para começar a responder, Patricia parte da própria definição de imagem corporal.

Ela explica, sob a ótica da psicanálise: “A imagem corporal não se reduz à aparência física nem à percepção objetiva do corpo. Envolve a forma como o sujeito se reconhece, se representa e se relaciona com o próprio corpo a partir de experiências afetivas, inconscientes, familiares e sociais.”

A especialista ressalta ainda que, nessa abordagem, o corpo é mais do que um organismo biológico. “O corpo para a psicanálise não é apenas biológico, ou o conjunto de sistemas que o compõe. É também um corpo marcado pelo desejo, pela linguagem, pelas identificações e pela história do sujeito.”

O corpo como construção do eu desde os primeiros cuidados

Antes mesmo de ter uma imagem integrada de si, o bebê nasce em estado de completo desamparo, dependendo de um outro que o alimente e o acolha. São os cuidados repetidos com toques, olhares e palavras que vão costurando a unidade corporal. Para Freud, essa experiência é fundante para a constituição do eu.

Patricia explica que, nessa perspectiva, o corpo não é apenas um organismo biológico, mas o alicerce da própria vida psíquica. “O corpo aparece ligado à constituição do eu. A ideia de que o eu é, antes de tudo, um eu corporal indica que a experiência psíquica se organiza a partir das sensações, dos limites e das marcas vividas no corpo.”

O olhar, para ela, tem papel central nesse processo. Ela busca em dois autores pistas para entender essa importância, especialmente num momento em que as imagens nas redes sociais nos atravessam o tempo todo. O primeiro é Winnicott, que no texto O papel do espelho da mãe e da família no desenvolvimento da criança escreve: “Quando olho, sou visto, logo existo.” Patricia traduz essa ideia de forma direta: “O primeiro espelho do bebê é o rosto da mãe.”

Já Lacan, no texto de 1949 do Estádio do Espelho, traz outra camada. Entre 6 e 18 meses, a criança ainda não tem maturidade motora para andar, falar ou controlar as sensações internas. Nessa condição de descoordenação, ela se depara com a própria imagem refletida e se fascina. “Ao reconhecer sua imagem refletida, a criança antecipa uma unidade corporal que ainda não domina plenamente em sua experiência motora e psíquica.”

Patricia ressalta que esse reconhecimento, no entanto, não é simples nem isento de conflito. A imagem que vem do espelho é ao mesmo tempo fonte de identificação e de estranhamento. “Ao mesmo tempo que se identifica com aquela imagem, ela se aliena nela, porque essa imagem vem de fora e depende do olhar do outro. Portanto, o Eu nasce de uma imagem externa que tomamos como sendo nós mesmos.”

Da teoria à clínica: o impacto das imagens virtuais

Diante dos conceitos psicanalíticos, fica a pergunta: o que tudo isso tem a ver com a depressão, a ansiedade ou a queda na satisfação corporal dos adolescentes? A resposta está justamente na profundidade do processo. A imagem corporal não se resume a estar ou não dentro dos padrões estéticos impostos pela cultura. “É um processo que se constitui a partir da história daquele sujeito desde o seu nascimento e dos primeiros contatos com as figuras parentais e com os objetos.”

Há ainda uma distinção fundamental que costuma gerar confusão. O esquema corporal diz respeito à realidade objetiva e funcional do corpo, enquanto a imagem corporal tem uma natureza distinta. “Ela se relaciona com essas inscrições originárias que acontecem nos primeiros tempos de vida. Portanto, é algo a ser trabalhado dentro de uma escuta analítica e com a delicadeza que o tema possui.”

Ao voltar o olhar para o universo das crianças e adolescentes imersos no mundo virtual, a profissional chama atenção para o impacto dos modelos de corpo exibidos nas redes. Na adolescência, as transformações hormonais já impõem um estranhamento natural com a própria imagem. “O que eu vejo não conversa com aquilo que eu sinto. Quero descobrir o mundo, mas não sei se dou conta de sair em direção aos meus desejos. E o que faço com a minha insegurança é uma questão que fica em aberto.”

Os espelhos virtuais, segundo ela, funcionam de maneira particularmente cruel. Não mostram a realidade, mas um ideal inalcançável. “O que se vê neles é um ideal que não consigo encontrar em mim. Corpos extremamente magros, abdomens sarados, pernas torneadas e uma beleza produzida para que você saia consumindo indiscriminadamente a solução para seu corpo franzino ou redondo. ” O efeito disso é um afastamento progressivo de si mesmo. “Quanto mais se busca essa solução no espelho externo, mais distante se está de si próprio, o que acaba por gerar muita angústia, retraimento social e até mesmo agressividade.”

O sentimento de não pertencimento agrava ainda mais esse quadro. “Se não estou dentro desse padrão, então não pertenço, não tenho como entrar a não ser pelo caminho sugerido pelo fulano ou pela imagem de tal vídeo postado por sicrana.”

A saída, no entanto, não está na proibição. “A questão não está em proibir o uso das redes sociais, mas de equilibrar e principalmente mediar o que vemos e o que lemos. É necessário investigarmos a fundo qual é a comprovação científica do uso dessa ou daquela substância. A ciência e o respaldo de boas instituições de saúde estão sempre alertando para usos inadequados de anabolizantes, medicações e suplementos. Basta que os pais procurem e se impliquem no que seus filhos estão consumindo.”

O papel dos pais e o caminho da escuta

Muitos pais, ao se depararem com as insatisfações dos filhos em relação ao próprio corpo, sentem-se tomados pela impotência e pelo desespero de querer resolver algo que parece fugir ao seu alcance. É nesse momento de urgência que soluções que não são benéficas acabam sendo buscadas.

Patricia afirma que contrapor a insatisfação com frases como “Você tá linda”, “Você tá magra” ou “Você tá vendo errado” costuma ter efeito inverso. “Esse tipo de abordagem adianta pouco e por vezes acaba dificultando o diálogo entre pais e filhos”.

Ela explica que esse tipo de comentário categoriza o corpo dentro de um ideal que muitas vezes reflete a neurose dos pais, aquilo que eles lidam mal, e que não possibilitam que o lado subjetivo do filho possa aparecer. Ou seja, que o real desejo daquele sujeito possa ter voz. Não ajudam e afastam quem mais precisa ser ajudado.

A sugestão da profissional, então, é que a distorção da imagem corporal seja tratada como uma questão clínica, encaminhada para quem tem ferramentas para lidar com sua complexidade. “Essa questão da distorção da imagem deve ser endereçada à psicoterapia que, junto com os demais profissionais da saúde, terá condições de trabalhar com algo tão complexo, além de orientar adequadamente a conduta de pais e familiares.”

Ela faz um convite à busca por suporte fora do núcleo familiar. “Busquem rede de apoio porque sofrimento compartilhado pode ser transformado em discurso e novas narrativas se abrem para os personagens.”

Garoto sentado na escada com expressão de tristeza.
Foto: Magnific.
Enquanto as redes sociais mostram um corpo ideal para se copiar, a psicanálise mostra que o verdadeiro caminho é construir um corpo onde o jovem consiga morar.

Conclusão

A insatisfação com o corpo, tão presente entre os jovens, não se resolve com frases prontas nem com a imposição de padrões. Exige escuta, paciência e, muitas vezes, a ajuda de profissionais que saibam acolher suas angústias.

Agende uma conversa no espaço Serivê e saiba como podemos ajudar seu filho a construir uma relação mais saudável com a própria imagem.

Bibliografia:

KACHANI, T.A, JACOBSOHN, G.P. Imagem Corporal na prática clínica. Barueri [SP]: Manole,2025.

LACAN, Jaques. O estádio do Espelho como formador da função do eu. In Escritos. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. P.96-103

WINNICOTT, D.W. O papel do espelho da mãe e da família no desenvolvimento da criança; In_O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.p 153-162

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