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Alimentação infantil: nutricionista do Espaço Serivê comenta a série Pratinho Cheio

Foto do escritor: Patricia Vieira e Maria Clara Vieira
Patricia Vieira e Maria Clara Vieira
28 de out.
6 min de leitura

Neste artigo, a profissional analisa os desafios da alimentação na infância, da formação dos hábitos alimentares à influência da publicidade e dos alimentos ultraprocessados. Vem conferir!

A alimentação infantil é o tema da série Pratinho Cheio, do podcast O Joio e O Trigo, que aborda aspectos históricos, sociais e científicos relacionados à nutrição de crianças. A produção levanta reflexões sobre a evolução das recomendações alimentares, o mercado de produtos voltados ao público infantil e os desafios para promover hábitos saudáveis desde os primeiros anos de vida.

A partir das discussões propostas pela série, Maria Clara Vieira Paschoal, nutricionista do Espaço Serivê, analisa os desafios relacionados à alimentação infantil, com destaque para a seletividade alimentar infantil, a influência da publicidade nas escolhas alimentares e o consumo de alimentos ultraprocessados. Confira, a seguir, seu breve currículo:

  • Maria Clara Vieira Paschoal – Nutricionista formada pelo Centro Universitário São Camilo, com atuação focada na área materno-infantil. Pós-graduada em Nutrição Clínica Materno Infantil pelo ICr HCFMUSP e em Nutrição em Oncologia pelo Hospital Israelita Albert Einstein, atualmente é mestranda em Pediatria pelo HCFMUSP.

  • Atua como nutricionista clínica em consultório particular e é voluntária no Instituto da Criança e do Adolescente do HCFMUSP, além de atender a Seleção Brasileira de Futsal Down. Possui cursos de aprimoramento em Terapia Nutricional na Síndrome de Down, dificuldades alimentares no TEA e capacitação em atendimento nutricional no atleta pediátrico, incluindo formação na Academia Clínica Espregueira, em Portugal.

  • Entre suas contribuições acadêmicas, publicou o resumo científico Comparação do perfil nutricional das papinhas industrializadas para crianças de 6 a 7 meses na 2ª edição do Congresso Europeu de Nutrição Materno Infantil.


Para tornar sua leitura mais fluida e agradável, dividimos nosso conteúdo em tópicos. São eles:


Boa leitura!


Mãe alimentando criança.
A formação dos hábitos alimentares começa na infância, com experiências que ajudam a criança a conhecer novos sabores e desenvolver uma relação positiva com a comida.


A evolução da alimentação infantil e os desafios atuais

A série Pratinho Cheio, do podcast O Joio e O Trigo, apresenta uma linha do tempo da alimentação infantil, desde a amamentação e o surgimento das fórmulas infantis até o desenvolvimento das papinhas e as preocupações com a segurança alimentar. Historicamente, a falta de saneamento básico e as condições de insegurança alimentar contribuíam para a mortalidade infantil. Desse modo, os avanços científicos tiveram papel importante na proteção da saúde e na sobrevivência das crianças.

Maria Clara chama a atenção para a mudança na forma de compreender o desenvolvimento infantil. “Antigamente, a preocupação com a sobrevivência infantil era fazer a criança ganhar peso, independentemente de ela estar preparada ou não para comer”, explica. Conforme expõe, açúcar e alimentos ultraprocessados eram utilizados com esse objetivo. “Atualmente, além de acompanhar o ganho de peso, é necessário observar o crescimento, o desenvolvimento e a qualidade da alimentação. Afinal, fatores relacionados aos hábitos alimentares na infância podem influenciar a saúde na vida adulta e contribuir para o desenvolvimento de doenças como obesidade e hipertensão”, complementa.

Outro aspecto levantado pela série é a distância entre o conhecimento científico e sua aplicação cotidiana. “Embora existam evidências consistentes sobre a introdução alimentar e a formação dos hábitos alimentares, ainda há desafios na comunicação dessas orientações às famílias”, avalia Maria Clara. Para ela, a atualização dos profissionais também é fundamental para que as recomendações acompanhem os avanços científicos sobre a formação dos hábitos alimentares.

As mudanças na rotina das famílias ajudam a explicar parte dos desafios atuais. Se décadas atrás a alimentação infantil era frequentemente preparada em casa, hoje as crianças fazem mais refeições na escola ou fora de casa, enquanto os serviços de entrega e os produtos prontos ampliam as opções de conveniência para os responsáveis. “A praticidade se tornou um fator importante na escolha dos alimentos, mas é fundamental criar espaço para produtos que conciliem facilidade de consumo e qualidade nutricional”, destaca.

A nutricionista também comenta as transformações no mercado de alimentos infantis. As papinhas da Nestlé comercializadas em potes já não estão disponíveis no mercado brasileiro, enquanto marcas como a Papapá oferecem alternativas práticas com uma proposta de alimentação mais saudável para crianças. “Essa mudança é relevante diante da necessidade de conciliar a rotina das famílias com escolhas alimentares de melhor qualidade”, comenta Maria Clara.

Seletividade alimentar infantil: quando é preciso buscar orientação?

Entre os dois e os quatro anos de idade, é comum que as crianças passem por uma fase chamada neofobia alimentar, caracterizada pela resistência a experimentar determinados alimentos. Maria Clara explica que essa reação está relacionada a um mecanismo de proteção: “É como se o organismo da criança tivesse uma defesa para evitar alimentos potencialmente tóxicos. Sabores como o doce e o salgado costumam ser mais aceitos, enquanto os sabores amargos e azedos, presentes em muitas frutas, verduras e legumes, podem gerar maior resistência”.

Nessa fase, pode haver uma redução no consumo desses alimentos, mas é importante observar como a aceitação evolui. “A seletividade não deve se prolongar a ponto de restringir cada vez mais a variedade alimentar da criança, que pode passar a aceitar apenas alimentos de maior palatabilidade”, pontua.

A nutricionista orienta que pais e responsáveis continuem oferecendo os alimentos recusados, sem desistir após as primeiras tentativas. “É por meio da exposição repetida que a criança aprende a gostar de um alimento”, destaca. Assim, mesmo que a criança tenha aceitado frutas, verduras e legumes durante a introdução alimentar e passe a recusá-los nessa fase, é importante manter o contato com esses alimentos.

A orientação nutricional é indicada quando a criança deixa de ampliar a variedade do que come e passa a restringir progressivamente a alimentação, consumindo cada vez mais produtos muito palatáveis. “Se a criança não está avançando na diversidade e na aceitação alimentar, mas, pelo contrário, está aceitando cada vez menos alimentos, é importante procurar um nutricionista. Essa atenção também é necessária quando há impacto no peso ou no crescimento”, alerta Maria Clara.


Mãe e filha escolhendo produtos no mercado.
As escolhas alimentares das crianças também são influenciadas pelo ambiente e pela apresentação dos produtos. Por isso, a atenção dos responsáveis é importante na hora das compras.


A influência da publicidade nas escolhas alimentares das crianças

A influência da publicidade na alimentação infantil é um tema importante na discussão sobre as escolhas alimentares e a obesidade entre crianças. Maria Clara cita o documentário Muito Além do Peso, que aborda a obesidade infantil no Brasil e discute o papel da publicidade nesse cenário. “O mercado quer vender e utiliza estratégias para despertar o interesse das crianças pelos produtos. Essa influência é tão relevante que a possibilidade de proibir a publicidade de alimentos voltada ao público infantil vem sendo discutida no âmbito legislativo”, explica.

Essa influência também aparece na disposição dos produtos nas prateleiras dos supermercados. Biscoitos, salgadinhos e bebidas com embalagens estampadas com personagens de desenhos, princesas e super-heróis costumam ficar ao alcance do olhar e das mãos das crianças. “A organização do mercado favorece o interesse pelos alimentos ultraprocessados mais palatáveis. A criança vê um produto com o Batman na embalagem ou a Moana no copo e pode associar aquela comida ao universo infantil”, observa a nutricionista.

Enquanto esses produtos investem em embalagens chamativas, alimentos como frutas, verduras e legumes não contam com os mesmos recursos visuais. Segundo Maria Clara, essa diferença contribui para a construção de uma ideia equivocada sobre o que seria uma comida destinada às crianças. Embora a publicidade na televisão tenha diminuído em relação às décadas de 1980 e 1990 e ao início dos anos 2000, outras estratégias de exposição e apresentação dos produtos continuam presentes nos pontos de venda.

A nutricionista retoma iniciativas de marcas que buscam oferecer opções mais saudáveis para o público infantil. A Papapá, já citada por ela, começou com papinhas de frutas em embalagens próprias para consumo direto e ampliou seu portfólio com produtos como sucos de caixinha, bebidas achocolatadas e salgadinhos assados. A marca também desenvolveu personagens próprios para suas embalagens, em vez de recorrer a figuras já conhecidas de desenhos e filmes. “Esse é um exemplo de como recursos de comunicação e marketing podem ser utilizados para promover produtos com uma proposta nutricional mais saudável”, enfatiza.

  Conclusão

A infância é uma fase importante para descobrir sabores, experimentar alimentos e construir hábitos que podem acompanhar a criança por toda a vida. Com orientação adequada e experiências positivas à mesa, é possível tornar a alimentação mais variada e prazerosa.

O Espaço Serivê oferece acompanhamento multidisciplinar, que integra nutrição e psicanálise, para ajudar as famílias a lidar com os desafios de cada etapa do desenvolvimento infantil.

Clique aqui e veja como esse cuidado pode fazer a diferença na vida do seu filho.

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