Quando o ultraprocessado vira rotina: os alertas do novo relatório do UNICEF
- Patricia Vieira e Maria Clara Vieira

- 15 de mai.
- 6 min de leitura
O relatório do UNICEF evidencia como mudanças no padrão alimentar infantil, impulsionadas pelo avanço dos ultraprocessados, já impactam a saúde e o desenvolvimento de crianças e adolescentes em todo o mundo. Saiba mais!
O mais recente relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) acende um alerta importante sobre as mudanças no padrão alimentar de crianças e adolescentes em todo o mundo. O estudo aponta que a obesidade já ultrapassou o baixo peso como principal forma de má nutrição na faixa etária de 5 a 19 anos, ao mesmo tempo em que evidencia um consumo cada vez mais frequente de alimentos ultraprocessados, ricos em açúcar, sal e gordura, desde os primeiros anos de vida, especialmente em países de baixa e média renda.
Isso levanta discussões urgentes sobre o ambiente alimentar ao qual crianças e adolescentes estão expostos. A ampla disponibilidade, o baixo custo e a forte presença de alimentos ultraprocessados na publicidade e no cotidiano das famílias ajudam a explicar essa transformação acelerada. Além disso, a ausência de políticas públicas mais abrangentes e integradas em diferentes países reforça a dificuldade de conter o avanço desse padrão alimentar.
Neste artigo, a nutricionista Maria Clara Vieira Paschoal analisa os principais achados do relatório, seus desdobramentos para a saúde de crianças e adolescentes e os fatores que contribuem para a consolidação desse cenário global. Confira seu breve currículo.
Maria Clara Vieira Paschoal – Nutricionista formada pelo Centro Universitário São Camilo, com atuação focada na área materno-infantil. Pós-graduada em Nutrição Clínica Materno Infantil pelo ICr HCFMUSP e Nutrição em Oncologia pelo Hospital Israelita Albert Einstein, atualmente é mestranda em Pediatria pelo HCFMUSP.
Atua como nutricionista clínica em consultório particular, além de atender a Seleção Brasileira de Futsal Down. Possui cursos de aprimoramento em Terapia Nutricional na Síndrome de Down, dificuldades alimentares no TEA e capacitação em atendimento nutricional no atleta pediátrico, incluindo formação na Academia Clínica Espregueira, em Portugal.
Entre suas contribuições acadêmicas, publicou o resumo científico Comparação do perfil nutricional das papinhas industrializadas para crianças de 6 a 7 meses, na 2ª edição do Congresso Europeu de Nutrição Materno Infantil.
Para facilitar sua leitura, dividimos o texto nos seguintes tópicos:
Boa leitura!
Por que a obesidade infantil ultrapassou o baixo peso
Maria Clara aponta que a mudança no padrão alimentar de crianças e adolescentes é resultado de um processo histórico que vem se intensificando nas últimas décadas e que já era perceptível em registros antigos sobre alimentação infantil.
Ela cita o documentário Muito Além do Peso como um marco importante para compreender essa transformação. “É um documentário antigo, mas muito atual. Se fosse produzido hoje, talvez o resultado fosse ainda mais chocante”, comenta.
Maria Clara destaca que a produção já evidenciava a rápida transformação do ambiente alimentar infantil, inclusive em contextos antes pouco expostos a alimentos industrializados. “Tem uma cena muito marcante de um barco levando produtos da Nestlé para comunidades ribeirinhas. Antes, o acesso a esse tipo de alimento era muito limitado. Hoje, ele chega com muita facilidade”, observa.
Para ela, esse movimento está diretamente relacionado à globalização do sistema alimentar e à reorganização da oferta de produtos pela indústria. “É uma combinação de fatores. Os alimentos ultraprocessados se tornaram muito acessíveis e, em muitos casos, mais baratos do que alimentos in natura ou minimamente processados”, explica.
Além do preço e da disponibilidade, Maria Clara chama atenção para a forma como esses produtos ocupam o ambiente de consumo. “Eles estão em locais estratégicos nas prateleiras, com grande visibilidade, principalmente para o público infantil”, pontua.
Ela também ressalta as desigualdades no acesso à alimentação saudável em diferentes regiões. “Em algumas comunidades, faltam serviços básicos, mas há grande presença de ultraprocessados. É um acesso que chega de forma muito rápida e massiva”, afirma.
Como proteger crianças do ambiente alimentar ultraprocessado
Maria Clara defende que a proteção de crianças e adolescentes diante do consumo excessivo de ultraprocessados não passa por proibição, mas pela construção ativa de hábitos alimentares mais saudáveis no cotidiano familiar.“Não se trata de proibir esses alimentos, mas de promover e valorizar o consumo de alimentos naturais”, explica.
Segundo ela, pequenas mudanças na rotina podem ter impacto significativo na formação do repertório alimentar infantil. “Ir ao mercado com mais calma, levar a criança à feira e mostrar as cores, os cheiros e as texturas dos alimentos faz muita diferença”, afirma.
Maria Clara destaca que envolver a criança no processo de escolha e preparo também contribui para ampliar o interesse por alimentos in natura. “Deixar a criança pegar, ajudar a pesar, participar do preparo, tudo isso muda a relação dela com a comida”, diz.
Esse tipo de vivência, segundo a nutricionista, ajuda a reduzir a centralidade dos ultraprocessados no dia a dia. “Quando existe uma rotina alimentar mais equilibrada, é menos provável que a criança fique tão exposta e tão atraída por esse ambiente alimentar mais agressivo”, pontua.
A profissional também chama atenção para o papel do ambiente digital e da publicidade na formação de preferências alimentares. “A gente precisa ter cuidado com o que a criança está vendo na internet. As propagandas e as embalagens são muito direcionadas ao público infantil”, alerta.
Ela lembra que esse não é um fenômeno recente, mas que se intensificou com novas estratégias de marketing. “Todo produto voltado para criança sempre teve embalagem chamativa, com desenhos e cores. Isso existe há muito tempo, mas hoje está ainda mais presente e sofisticado”, observa.

Marketing alimentar e o impacto no consumo infantil
A nutricionista destaca que, embora haja avanços importantes na regulação de rótulos e na forma como os produtos são apresentados, ainda existem lacunas relevantes quando o tema é a proteção do público infantil.
Ela reconhece que mudanças regulatórias já estão em curso, especialmente no que diz respeito à rotulagem frontal e ao uso de elementos visuais voltados para crianças. “Isso já está sendo discutido e, em alguns casos, já há prazos para adequação das marcas. É um avanço, mas ainda há muito espaço para melhorar”, observa.
Na avaliação de Maria Clara, o ponto central do debate não está apenas na informação ao consumidor, mas na forma como os alimentos são promovidos. “A minha principal questão é o marketing. A gente precisa promover saúde, não doença”, afirma.
Ela critica estratégias que associam produtos ultraprocessados a eventos culturais e esportivos de grande apelo popular. “Quando você vê uma marca como a Coca-Cola lançando embalagens especiais para a Copa do Mundo, isso chama muito a atenção das crianças. Isso estimula o consumo de forma direta”, pontua.
Conforme explica, esse tipo de comunicação reforça a necessidade de políticas mais restritivas e claras sobre publicidade infantil. “O marketing precisa ser regulado de forma mais rígida quando é direcionado ao público infantil, sempre com foco em saúde”, defende.
Maria Clara também chama atenção para o papel do ambiente escolar nesse contexto. “A escola é um espaço de aprendizado e formação de hábitos. Não faz sentido ser um ambiente onde se estimule o consumo de produtos ricos em açúcar e gordura”, afirma.
Ela observa que o impacto desses alimentos vai além da alimentação em si, podendo interferir inclusive no desempenho das crianças. “Sabemos que esse tipo de alimento pode prejudicar o rendimento escolar, então ele não deveria ocupar esse espaço”, completa.
Conclusão
Os dados apresentados pelo relatório do UNICEF apontam que garantir uma alimentação mais equilibrada para crianças e adolescentes exige mudanças estruturais, mas também escolhas conscientes no cotidiano, tanto em casa quanto no ambiente escolar. A forte presença de ultraprocessados, aliada ao marketing direcionado e ao fácil acesso, cria desafios concretos, que demandam a atuação conjunta de famílias, educadores e profissionais de saúde.




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