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O que o Atlas Mundial da Obesidade 2026 revela sobre a infância e por que essas evidências exigem atenção imediata?

  • Foto do escritor: Patricia Vieira e Maria Clara Vieira
    Patricia Vieira e Maria Clara Vieira
  • 12 de abr.
  • 7 min de leitura

Atualizado: 13 de abr.

Neste artigo, a nutricionista Maria Clara Vieira Paschoal comenta dados relevantes do relatório e aponta caminhos para apoiar o desenvolvimento saudável das crianças. Acompanhe!

O Atlas Mundial da Obesidade 2026 apresenta um panorama contundente sobre o avanço da obesidade infantil em escala global. O documento reúne evidências que mostram que crianças com Índice de Massa Corporal (IMC) elevado já manifestam sinais precoces de doenças crônicas, um indicativo de que o impacto metabólico do excesso de peso está ocorrendo cada vez mais cedo. Além disso, o relatório mostra que fatores nos primeiros anos de vida, como a saúde materna, o padrão de amamentação, a formação dos hábitos alimentares e o ambiente familiar, exercem influência significativa no risco futuro de obesidade.

Outro ponto central do Atlas é o papel das instituições de ensino. As escolas são descritas como ambientes estratégicos para intervenções capazes de reduzir a incidência da obesidade infantil, seja pela oferta adequada de refeições, ou pelo incentivo estruturado à atividade física. O relatório reforça que políticas públicas voltadas à alimentação escolar e ao movimento têm potencial direto de mitigar indicadores que hoje preocupam especialistas em diversos países.

Neste artigo, a nutricionista Maria Clara Vieira Paschoal comenta esses pontos destacados pelo Atlas. Mas antes de apresentarmos suas observações, confira seu breve currículo:

  • Maria Clara Vieira Paschoal – Nutricionista formada pelo Centro Universitário São Camilo, com atuação focada na área materno-infantil. Pós-graduada em Nutrição Clínica Materno Infantil pelo ICr HCFMUSP e em Nutrição em Oncologia pelo Hospital Israelita Albert Einstein, atualmente é mestranda em Pediatria pelo HCFMUSP.

  • Atua como nutricionista clínica em consultório particular e é voluntária no Instituto da Criança e do Adolescente do HCFMUSP, além de atender a Seleção Brasileira de Futsal Down. Possui cursos de aprimoramento em Terapia Nutricional na Síndrome de Down, dificuldades alimentares no TEA e capacitação em atendimento nutricional no atleta pediátrico, incluindo formação na Academia Clínica Espregueira, em Portugal.

  • Entre suas contribuições acadêmicas, publicou o resumo científico Comparação do perfil nutricional das papinhas industrializadas para crianças de 6 a 7 meses, na 2ª edição do Congresso Europeu de Nutrição Materno Infantil.

Para facilitar sua leitura, dividimos o texto nos seguintes tópicos:

 

Boa leitura!

Sinais precoces e percepção pelos responsáveis

Maria Clara observa que os sinais precoces de doenças crônicas associados ao excesso de peso aparecem com maior frequência na adolescência. “Vemos adolescentes com obesidade e com níveis de insulina elevados.” Em crianças pequenas, a ocorrência ainda é menor, mas cresce progressivamente. “Já acompanhei crianças com eletrocardiograma alterado em razão da obesidade.”

Ela destaca que alterações metabólicas mais severas não são predominantes na infância, embora mudanças significativas sejam cada vez mais comuns. “As alterações mais frequentes são no colesterol, nos triglicerídeos e na insulina.” A avaliação contínua desses indicadores é determinante para compreender a evolução do risco cardiometabólico. “Quando observamos a evolução dos exames ao longo dos anos, conseguimos identificar como o excesso de peso influencia o surgimento de doenças crônicas que tendem a se intensificar na vida adulta.”

Sobre como os responsáveis podem identificar esses sinais, Maria Clara enfatiza que a maioria deles não é facilmente perceptível. “Grande parte dessas alterações não aparece de forma evidente; dependemos dos exames de sangue para detectar o problema.”

Ainda assim, alguns indícios físicos podem surgir. “A resistência insulínica pode se manifestar pela acantose, aquela mancha escurecida ao redor do pescoço.” Ela também aponta a importância de observar alterações respiratórias. “Quando a criança apresenta falta de fôlego com facilidade, isso pode indicar o início de alguma condição crônica.”

A recomendação é manter um acompanhamento regular. “É fundamental levar a criança ao pediatra com maior periodicidade, para que os exames sejam solicitados e monitorados corretamente.”

Criança comendo um prato de legumes. Foto: Freepik.
A prevenção da obesidade infantil deve começar nos primeiros anos de vida, com hábitos saudáveis e cuidado contínuo.


Primeiros anos de vida e o risco de desenvolver obesidade infantil

Maria Clara destaca que os primeiros meses e anos de vida exercem influência direta sobre a saúde futura da criança. “A forma como a gestação acontece já começa a impactar o risco de obesidade infantil.” Ela cita pesquisas em genética que investigam o período pré-concepção e o pré-natal. “Os estudos mostram relações importantes entre o preparo dos pais, o acompanhamento adequado da gestação e a menor probabilidade de obesidade na infância.”

A qualidade do pré-natal é um ponto central nessa construção. “Quando a gestação é acompanhada corretamente, com controle do ganho de peso materno e realização dos exames, aumentam as chances de a criança nascer com um peso adequado.” Ela observa que esse cenário ainda não é realidade para grande parte da população brasileira, mas reforça seu impacto. “Hoje vemos bebês nascendo grandes para a idade gestacional, chegando a cinco quilos, o que já representa um fator de risco.”

A amamentação aparece como um dos fatores mais relevantes na proteção contra a obesidade. “O aleitamento materno oferece diferentes sabores, contribui para a proteção imunológica e é a forma mais adequada de nutrir a criança.” Além disso, favorece um mecanismo natural de autorregulação. “No aleitamento materno, a criança ajusta a quantidade que precisa; na mamadeira, trabalhamos com volumes predefinidos, que nem sempre respeitam o ritmo fisiológico do bebê.”

Ela reconhece os desafios enfrentados pelas mães. “Amamentar não é simples: exige esforço, dedicação e pode ser desconfortável nos primeiros dias, mas quando possível, amamentar até pelo menos dois anos traz benefícios importantes.” Nesse período, outro marco crítico surge: a introdução alimentar. “A introdução começa aos seis meses e vai até os dois anos; é uma janela essencial para criar hábitos alimentares saudáveis por meio de alimentos in natura e da exposição a sabores, texturas e consistências variadas.”

A oferta precoce de ultraprocessados é apontada como fator de risco significativo. “Até os dois anos, esses alimentos não deveriam fazer parte da rotina.” Ela relata situações que testemunhou na prática clínica. “Já vi crianças com oito meses tomando suco de caixinha; esse consumo precoce aumenta muito o risco de obesidade mais tarde.”

O ambiente infantil, segundo Maria Clara, envolve também a maneira como a criança interage com o mundo ao redor. “O uso de telas está relacionado a uma introdução alimentar inadequada e a hábitos que favorecem o ganho de peso.” Para ela, os primeiros anos formam a base de todo o comportamento alimentar. “Quando amamentação e introdução alimentar são bem conduzidas, o risco de obesidade diminui de maneira significativa.”

 

O papel da escola na prevenção da obesidade infantil

A nutricionista ressalta que a escola se tornou o ambiente onde a criança passa a maior parte do dia, o que amplia a responsabilidade da instituição sobre alimentação e estilo de vida. “Hoje, com as escolas de período integral, muitas crianças fazem três ou até quatro refeições no ambiente escolar: café da manhã, lanches, almoço e, em alguns casos, jantar.” Por isso, ela reforça que o cuidado com o que é oferecido precisa ser criterioso. “A escola, muitas vezes, fornece todas as refeições que a criança consome naquele dia.”

Conforme explica, não basta pensar apenas na qualidade nutricional dos alimentos. “É essencial conscientizar os profissionais da escola sobre hábitos alimentares de forma mais ampla: não apenas porções e nutrientes, mas também questões como o uso de telas, a postura à mesa e o respeito ao ritmo de cada criança.” Maria Clara lembra que, em muitos casos, a resistência em comer se manifesta no ambiente escolar. “Há crianças que não se alimentam ali, e esse manejo requer cuidado; mesmo que elas não comam, estar com a turma e vivenciar o momento da refeição é importante.”

Ela também chama atenção para um cenário frequente no Brasil: para algumas crianças, a refeição escolar é a única refeição do dia. “Por isso, a alimentação da escola precisa ser saudável e de qualidade.” Nesse ponto, Maria Clara alerta para o risco das cantinas. “As cantinas querem vender; muitas vezes são terceirizadas e oferecem exatamente o que atrai as crianças: ultraprocessados, frituras, doces, bebidas açucaradas. Por isso, é necessário vigilância permanente e políticas claras.”

Outro eixo crítico é a atividade física e a forma como a escola lida com alunos com obesidade. “Infelizmente, as escolas não estão preparadas para receber uma criança com obesidade”. A exclusão aparece com frequência. “Muitas relatam que não fazem educação física porque o professor não incentiva.” Quando participam, enfrentam constrangimentos. “Na hora de escolher times, costumam ser as últimas; o estigma e o bullying são muito presentes.”

Além das aulas formais, Maria Clara destaca que o ato de brincar também está sendo perdido. “Atendo crianças pequenas que já têm obrigações de crianças grandes.” Somado a isso, os espaços escolares muitas vezes não favorecem o movimento. “A escola deveria ser um lugar para brincar, especialmente na primeira infância, até os seis anos.”

Ela enfatiza que é preciso repensar tanto as políticas de alimentação quanto as práticas escolares relacionadas ao movimento, ao lazer e à inclusão. “A prevenção da obesidade infantil, depende de a escola assumir esse papel de forma ativa, responsável e sensível às necessidades das crianças.”

 

Conclusão

A prevenção da obesidade infantil exige uma abordagem contínua e multifatorial, que começa antes mesmo da concepção e se estende por toda a infância. O Atlas Mundial da Obesidade 2026 evidencia a urgência desse tema e mostra que políticas públicas, famílias, escolas e profissionais de saúde precisam atuar de forma integrada.

Quando o objetivo é reduzir a prevalência crescente da obesidade infantil, é fundamental transformar conhecimento em ação, com responsabilidade coletiva e compromisso real com a saúde das crianças.

Se você busca um acompanhamento qualificado, humano e contínuo para o crescimento do seu filho, o Espaço Serivê oferece uma estrutura dedicada ao desenvolvimento infantil, com profissionais especializados e apoio integral às famílias.

 

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