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Impactos da tecnologia na obesidade infantil: desafios e soluções

  • Foto do escritor: Patricia Vieira e Maria Clara Vieira
    Patricia Vieira e Maria Clara Vieira
  • 12 de jan.
  • 7 min de leitura

Neste artigo, mostramos como o uso excessivo de telas influencia a alimentação, o sono e o comportamento das crianças, e apresentamos estratégias para promover hábitos mais saudáveis. Entenda!

O avanço das tecnologias digitais transformou profundamente a rotina das famílias, especialmente no que diz respeito aos hábitos das crianças. Tablets, celulares, videogames e plataformas de streaming se tornaram parte do cotidiano, oferecendo entretenimento fácil e imediato.

No entanto, esse cenário também trouxe desafios importantes para a saúde infantil. A combinação entre menor gasto energético, longos períodos de tela e maior exposição a conteúdos que estimulam o consumo de alimentos ultraprocessados contribui diretamente para o aumento dos índices de obesidade entre crianças e adolescentes.

Entender como esses fatores se conectam é essencial para prevenir riscos e promover um desenvolvimento mais saudável.  Neste artigo, a nutricionista Maria Clara Vieira Paschoal falou mais sobre o assunto. Confira seu breve currículo:

  • Maria Clara Vieira Paschoal – Nutricionista formada pelo Centro Universitário São Camilo, com atuação focada na área materno-infantil. Pós-graduada em Nutrição Clínica Materno Infantil pelo ICr HCFMUSP e em Nutrição em Oncologia pelo Hospital Israelita Albert Einstein, atualmente é mestranda em Pediatria pelo HCFMUSP.

 

Para facilitar sua leitura, dividimos nosso texto por tópicos. São eles:

Aproveite o conteúdo!

 

Impactos das telas na rotina e no comportamento alimentar das crianças

Segundo a nutricionista, o uso de telas é hoje uma das maiores preocupações entre os profissionais que trabalham com crianças. Ela explica que esses dispositivos têm alienado os pequenos, reduzindo o contato com outras pessoas, alterando a relação com o ambiente e até confundindo a percepção do que é real ou não.

De acordo com Maria Clara, a presença constante das telas desestrutura a rotina infantil. “Antes, as crianças brincavam, conviviam com a família, faziam as refeições com calma e tinham mais contato social. Hoje, grande parte disso foi substituída pelas telas.” Ela pontua ainda que muitos pais utilizam o recurso como forma de manter a criança “quietinha”, embora isso traga consequências importantes para a saúde.

No comportamento alimentar, os impactos são evidentes. A nutricionista explica que a criança passa a se alimentar sem atenção ao próprio prato. “A tela aliena completamente da alimentação. A criança fica olhando para o dispositivo e muitas vezes nem leva o talher à boca. Os pais acabam fazendo isso por ela, e assim ela perde contato com sabor, cor, textura e não identifica os sinais de fome e saciedade.”

Maria Clara reforça que o sinal visual é o primeiro estímulo enviado ao cérebro durante a alimentação. Quando a atenção é desviada para a tela, esse processo é interrompido, dificultando a percepção de saciedade e levando a excessos: “A criança come mais do que deveria e nem sabe o que está comendo. Não reconhece alimentos, não aprende nomes, cores, nada. Fica tudo robotizado.”

Outro prejuízo apontado é a perda da dimensão social das refeições. Muitas crianças não se sentam mais à mesa: comem no sofá, no chão ou em qualquer lugar onde a tela esteja. “Parece que vira uma meta: foi lá, comeu, acabou. Não existe o prazer de cheirar, provar, tocar a comida. A tela tira tudo isso”.


Os impactos do uso excessivo de telas na infância vão além do sedentarismo — saiba o que observar.
Os impactos do uso excessivo de telas na infância vão além do sedentarismo — saiba o que observar.

 

Consequências neurológicas, sociais e hormonais associadas ao uso excessivo de telas

A nutricionista explica que os impactos das telas vão muito além do sedentarismo. Segundo Maria Clara, há prejuízos neurológicos importantes quando a criança come sem prestar atenção ao alimento. “Elas não conseguem sinalizar corretamente a ação dos hormônios porque não focam na refeição. Isso afeta diretamente a percepção de fome e saciedade.”

Além da parte neurológica, ela reforça que o desenvolvimento social também é comprometido. “São crianças que não brincam mais com outras crianças, não vivenciam conflitos sociais e ficam presas a um único aparelho. Não têm convívio com pais, tios, primos, com a família. Esse isolamento é um dos pontos mais preocupantes”, afirma.

O comportamento alimentar também sofre consequências. A profissional destaca que o uso excessivo de telas afeta o sono, o que intensifica ainda mais o desequilíbrio hormonal. “Muitas crianças só conseguem dormir em frente à tela, e a luz emitida por esses dispositivos não induz a ação da melatonina, que é essencial para iniciar o sono.”

Com noites mal dormidas, o corpo passa a regular de forma inadequada os hormônios relacionados à fome e à saciedade. “A criança sente mais fome, tem menos sensibilidade à saciedade e acaba comendo além do necessário. Isso aumenta significativamente o risco de obesidade”, expõe.

 

A influência da publicidade e dos conteúdos digitais nas escolhas alimentares

A exposição constante a propagandas e estratégias de marketing tem impactado diretamente a alimentação de crianças e adolescentes. Comerciais de televisão, ações dentro dos supermercados e conteúdos digitais são planejados para chamar atenção desse público, estimulando preferências alimentares pouco saudáveis. Maria Clara destaca que esse processo é bastante eficaz.

 “Quando um influenciador afirma que certo suplemento é ótimo para emagrecer ou quando um ultraprocessado aparece com um super-herói na embalagem, a criança entende aquilo como algo legal e passa a desejar aquele produto.”

No ambiente digital, o impacto é ainda maior. A nutricionista explica que influenciadores são percebidos como modelos a serem seguidos.

“Eles têm uma imagem corporal vista como bonita e atraente, e vendem a promessa de resultados rápidos — emagrecimento, definição muscular — que, na grande maioria das vezes, não acontecem, principalmente porque estamos falando de adultos influenciando corpos em fase de crescimento.”

Ela reforça que suplementos esportivos e dietas restritivas não são adequados para crianças e adolescentes. “Essas práticas podem comprometer o crescimento e o desenvolvimento, que são pilares da pediatria. Além disso, a propagação de um ideal de corpo extremamente magro e de dietas restritivas atinge especialmente meninas, aumentando o risco de transtornos alimentares.”

Maria Clara também chama atenção para a necessidade de supervisão dos conteúdos consumidos on-line. “Há muita informação voltada para adultos que crianças estão acessando. Isso traz conflitos em vários sentidos, não só na alimentação, mas na forma como elas se relacionam com o próprio corpo e com o mundo.”

 

Como usar a tecnologia de forma positiva para melhorar a rotina e o comportamento alimentar?

Apesar dos impactos negativos, a tecnologia também pode ser utilizada de maneira estratégica. Maria Clara destaca que, se a criança já está muito envolvida com telas e leva uma rotina sedentária, é possível transformar esse cenário em uma oportunidade. “Quando vemos uma criança sedentária que usa muito celular, tablet ou televisão, podemos usar esses mesmos recursos a nosso favor. Podemos estimular o movimento por meio da tecnologia.”

A nutricionista comenta que costuma orientar seus pacientes a utilizar vídeos e conteúdos digitais para incentivar atividade física. “Eu sempre digo: vamos colocar uma aula de dança na televisão, vamos dançar, pular, colocar uma música alegre. Isso é muito importante. Brincar é a atividade física da criança, e a tecnologia pode ajudar a criar esse estímulo.”

Ao mesmo tempo, ela reforça que alguns momentos devem ser preservados: alimentação e sono. Para Maria Clara, é essencial que a criança aprenda a realizar essas atividades sem o uso de telas. “A criança precisa saber dormir sem tela. Precisa saber comer sem tela. A rotina alimentar e o momento de pegar no sono não podem ser atropelados pelo uso de dispositivos.”

Outra orientação importante é evitar que a criança assista a conteúdos relacionados à comida o tempo todo. “Muitas ficam vendo apenas vídeos de receitas ou alimentos. Então, peço para os pais colocarem desenhos que não tenham nada a ver com comida ou, se a criança gosta de cozinhar, que a gente direcione isso para o lado saudável.”

Ela acrescenta que utiliza as próprias redes sociais para buscar conteúdos adequados quando a criança se interessa por gastronomia: “Se é uma criança que gosta de cozinhar, eu procuro receitas saudáveis na plataforma que ela mais usa. Ela pode cozinhar, testar a receita, até postar o vídeo se quiser. A tecnologia também pode melhorar a rotina alimentar.”

Por fim, Maria Clara ressalta um limite importante: “Eu sempre falo para os pais deixarem a criança usar telas no máximo duas horas por dia. Podemos usar a tecnologia para dançar, se movimentar ou assistir a um desenho, mas a alimentação tem que ficar restrita ao momento da alimentação.”

 

Estratégias práticas para reduzir o tempo de tela sem gerar conflitos

Uma das principais orientações para as famílias é compreender que a tecnologia pode ser usada de forma positiva, desde que não substitua etapas essenciais do crescimento infantil. Há aspectos da rotina — como alimentação, sono e interação social — que precisam acontecer sem telas.

Maria Clara reforça que o momento da refeição deve ser protegido. “É hora de comer. A criança precisa sentar à mesa, apoiar os pés — com auxílio, se necessário —, olhar para o prato, segurar os talheres, sentir o aroma, perceber as cores e identificar os alimentos.” Para ela, recuperar esse cuidado reduz conflitos e ajuda a criança a compreender limites de maneira mais natural.

Outra estratégia prática é explicar que nada do que está na internet desaparece. “Eu sempre digo aos meus pacientes que tudo o que está nas redes sociais continua lá. Eles podem dedicar vinte minutos para cada refeição, comer com calma e só então mexer no celular. Não existe motivo para pressa.”

Essa organização, acrescenta a nutricionista, favorece o funcionamento dos hormônios ligados à fome, à saciedade e ao sono, aspectos fundamentais para o desenvolvimento saudável.

A rotina também não pode ser ocupada apenas por telas. Quando a criança passa longos períodos no sofá, o tédio aparece — e muitos acabam buscando comida para mascarar essa sensação. Por isso, Maria Clara sugere criar variedade: brincar, pintar, montar jogos, fazer atividades físicas ou explorar conteúdos criativos.

A tecnologia pode entrar, mas de forma guiada. “Quer usar a internet? Então vamos abrir um desenho no tablet enquanto pintamos. Vamos transformar isso em algo útil, e não em algo que substitui todas as outras atividades.”

 

Conclusão

Os desafios impostos pelo uso excessivo de telas na infância vão muito além da perda de movimentação física. Eles afetam a alimentação, o comportamento, o sono, o convívio social e até a forma como crianças e adolescentes se relacionam com o próprio corpo.

Ao trazer suas observações, Maria Clara evidencia que a tecnologia não precisa ser tratada como vilã, mas deve ser utilizada com equilíbrio e propósito. Preservar momentos essenciais — como o sono e as refeições —, estabelecer rotinas e direcionar o uso das telas de maneira consciente são medidas simples, mas capazes de transformar o desenvolvimento infantil.

Com orientação adequada e participação ativa da família, é possível criar um ambiente mais saudável, favorecer hábitos positivos e reduzir os riscos associados à obesidade infantil.

 

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