O brincar como linguagem da infância
- Patricia Vieira e Maria Clara Vieira

- 23 de jan.
- 4 min de leitura
Neste artigo, mostramos porque o brincar é essencial para o desenvolvimento emocional, cognitivo e social da criança, e como os adultos podem favorecer experiências lúdicas mais ricas e saudáveis. Confira!

O brincar ocupa um lugar central no desenvolvimento infantil. Mais do que um gesto espontâneo ou uma forma de entretenimento, brincar é uma linguagem, uma experiência simbólica que permite à criança criar, experimentar, elaborar angústias e organizar internamente aquilo que vive. Do bebê que explora o próprio corpo aos primeiros jogos de faz-de-conta, passando pelos desafios dos jogos regrados da fase escolar, o brincar acompanha todas as etapas do crescimento, sustentando aspectos emocionais, cognitivos e sociais.
Na perspectiva psicanalítica, o brincar é também um espaço de elaboração de tensões internas, de acesso ao imaginário e construção de narrativas que ajudam a criança a dar sentido à realidade. Esse gesto criativo, cheio de potência e afeto, depende não apenas da disponibilidade interna da criança, mas também do ambiente que a cerca: o olhar dos pais, as oportunidades de interação e os objetos que favorecem a fantasia.
Para aprofundar esse tema, conversamos com Patricia Vieira, profissional do Espaço Serivê, que analisa o brincar infantil a partir de fundamentos da psicopedagogia e psicanálise. Confira seu breve currículo:
Para facilitar sua leitura, dividimos nosso texto por tópicos. São eles:
Aproveite o conteúdo!
O brincar como experiência simbólica e elaboração psíquica
“A palavra brincar vem do latim brinquere, que significa fazer algo de forma leve ou alegre”, explica Patricia. Na nossa cultura, o brincar está associado à diversão e ao jogo, mas seu alcance é muito maior. “Para a psicanálise, o brincar tem importância fundamental no desenvolvimento psíquico, motor e social.”
Ao brincar, a criança entra em contato com diferentes afetos, papéis e cenas internas. “Quem nunca brincou de casinha, de escola, de super-herói, em que o faz de conta recheia diálogos de personagens inventados?”.
Esse universo permite que a criança organize tensões e desejos, ideia presente no texto de Freud “Escritores Criativos e Devaneio”. Patricia destaca essa relação: “A criança cria um mundo de fantasia que leva a sério, que investe com emoção, mesmo sabendo que é diferente da realidade.”
É justamente essa separação — fantasia e realidade coexistindo — que torna o brincar tão potente na elaboração de medos, frustrações e situações difíceis. “Situações assustadoras podem ser elaboradas no jogo de faz-de-conta.” O brincar cria um espaço interno seguro no qual a criança pode experimentar, transformar e ressignificar aquilo que vive.
O papel dos pais e as formas de estimular o brincar
Ela descreve uma situação que ilustra bem essa ideia: uma criança pequena simulando o “parto” de uma boneca hiper-realista (muito em moda atualmente), equipada com um recurso criado justamente para reproduzir esse tipo de procedimento, tornando a cena muito próxima de um parto real. “Ficava nítida a expressão de desespero.
A inadequação estava na proximidade com um real que não pertence ao universo infantil. Para a pequena, bastava só carregar a boneca.” Nesse caso, o desejo atendido não era o da criança, mas o da mãe.
Por isso, Patricia recomenda brinquedos que abram possibilidades. “Sugiro sempre brinquedos desconstruídos, que permitam transformações. Uma caixa de papelão pode virar um carro.” A simplicidade amplia o imaginário e sustenta um brincar mais criativo e autoral.
Brincar, linguagem e escolarização: quando os jogos regrados entram em cena
O brincar compõe o universo simbólico da criança, o mesmo campo onde a linguagem se desenvolve. “Por isso, é base para aprendizagem e alfabetização.” Criar histórias, atribuir funções, experimentar diálogos e construir narrativas prepara a criança para estruturas cognitivas mais complexas.
Com a proximidade da escolarização formal, os jogos regrados tornam-se importantes. “Aos 6 anos, os jogos ajudam a disputar, perder, manter-se na regra, abrir mão do desejo e renunciar à satisfação imediata.” Conforme a criança avança, surgem outros desafios: estratégia, raciocínio lógico, capacidade de antecipação.
A linguagem também se amplia pelas experiências compartilhadas. “Leiam histórias, cantem, estimulem diferentes formas de linguagem. Só não deixem que isso vire obrigação, porque quando vira dever, o afeto se perde e as telas acabam surgindo como solução.”

O pós-pandemia e a necessidade de resgatar a espontaneidade do brincar
A pandemia deixou marcas perceptíveis na infância. “As crianças perderam muita espontaneidade para brincar.” A falta de convívio e de experiências coletivas reduziu a liberdade do brincar e a autonomia para criar jogos sem a mediação constante do adulto.
A retomada desse movimento pode ser gradual e prazerosa. “Chamar outras crianças e pais para brincadeiras coletivas ajuda a resgatar o prazer de brincar.” As férias, por exemplo, são uma oportunidade para proporcionar interação, diversidade de experiências e movimento. “Além de promover o desenvolvimento do corpo, ajudam a evitar o sedentarismo e a apatia presentes na rotina de muitas crianças.”
Conclusão
O brincar é um eixo estruturante da infância. A partir da visão de Patricia, compreendemos que brincar não é apenas um momento de descontração, mas um campo de desenvolvimento emocional, simbólico, motor e cognitivo.
Cabe ao adulto oferecer tempo, espaço e afeto para que esse processo aconteça de forma plena. Em um momento em que tantas crianças perderam espontaneidade, resgatar o brincar é também resgatar vitalidade, criatividade e potência infantil.




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