Como o discurso dos pais influencia a relação das crianças com a alimentação
- Patricia Vieira e Maria Clara Vieira

- 6 de jan.
- 5 min de leitura
Neste artigo, mostramos como comentários, comparações e hábitos familiares podem moldar a relação das crianças com a comida e com o próprio corpo — e o que fazer para transformar esse cenário. Confira!
A obesidade infantil é um desafio crescente na saúde pública e, mais do que números e estatísticas, envolve dimensões emocionais, sociais e familiares que precisam ser compreendidas com sensibilidade.
Nesse contexto, o discurso dos pais desempenha um papel central: é por meio da forma como eles falam sobre alimentação, corpo, saúde e hábitos diários que a criança constrói sua relação com a comida e com a própria imagem.
Expressões aparentemente simples podem reforçar estigmas, gerar culpa ou, ao contrário, estimular autonomia e comportamentos saudáveis. Entender como esse discurso se forma — e como ele impacta o desenvolvimento infantil — é fundamental para orientar famílias e profissionais que lidam diretamente com o tema.
A nutricionista Maria Clara Vieira Paschoal falou mais sobre esse assunto. Confira seu breve currículo:
Maria Clara Vieira Paschoal – Nutricionista formada pelo Centro Universitário São Camilo, com atuação focada na área materno-infantil. Pós-graduada em Nutrição Clínica Materno Infantil pelo ICr HCFMUSP e em Nutrição em Oncologia pelo Hospital Israelita Albert Einstein, atualmente é mestranda em Pediatria pelo HCFMUSP.
Para facilitar sua leitura, dividimos nosso texto por tópicos. São eles:
Aproveite o conteúdo!
O discurso que fere: proibições, comparações e rótulos que impactam a criança
Maria Clara observa que muitos pais, mesmo com a intenção de proteger, acabam adotando um discurso conflitante e até agressivo sobre alimentação e corpo. Isso aparece tanto em proibições quanto em comentários que reforçam culpa e vergonha. Um exemplo comum é quando o adulto diz: “Não coma esse alimento, senão você vai engordar”, classificando certos itens como “proibidos” ou “errados” e associando o ganho de peso a algo negativo.
Ela destaca também o uso de apelidos pejorativos — como “gordinho”, “baleia” ou “balofo” — que ferem a autoestima e criam uma relação emocionalmente tensa com a comida. Em alguns casos, o discurso é ainda mais direto, com frases como: “Já falei para não comer, você é gordo”.
Outro ponto sensível é a comparação dentro da própria família. Maria Clara relata situações em que os pais contrapõem os filhos, por exemplo: “Seu irmão come isso e não engorda, e você engorda”. Esse tipo de comparação desconsidera as diferenças individuais de metabolismo, biologia e comportamento, além de reforçar a ideia de que o peso define valor ou desempenho.
Por fim, ela ressalta um fenômeno crescente: a comparação com crianças vistas na internet. Muitas vezes idealizadas e expostas em contextos não condizentes com a realidade, essas imagens acabam servindo como parâmetro para alguns pais avaliarem o corpo do próprio filho — o que pode gerar expectativas irreais e críticas excessivas.

Comparações e expectativas irreais: quando a boa intenção causa dano
Maria Clara destaca que um dos comportamentos mais prejudiciais na relação das crianças com o próprio corpo e com a alimentação é a comparação. “Entendo que nenhuma comparação deve ser feita. Esse é o pior tipo de atitude que os pais podem ter, mesmo quando acreditam estar ajudando.”
Ela explica que muitos adultos, sem perceber, comparam o filho com outras crianças da mesma idade, com irmãos ou até consigo mesmos. Isso acontece porque carregam expectativas sobre como gostariam que o filho fosse — expectativas que, muitas vezes, remetem à própria infância:
“Muitas vezes, o pai foi uma criança magra e acha que o filho deveria ter a mesma estrutura corporal que ele.”
Além disso, o discurso sobre comida também pode ganhar um tom moralizante, reforçando a ideia de que certos alimentos são “ruins” ou que comer algo “vai engordar”.
“Classificar uma comida como ruim, dizer que ela vai fazer a criança engordar ou mandar parar de comer para emagrecer cria uma relação muito conflituosa com a alimentação.”
Outro ponto importante é quando os pais usam suas próprias histórias de dieta como referência para orientar os filhos. “Muitos pais dizem: ‘Eu fiz dieta, cortei carboidrato, cortei gordura e emagreci 20 quilos — falei para ele fazer isso’. Apesar de bem-intencionado, isso pode causar um impacto muito negativo.”
Para Maria Clara, esse tipo de discurso tem consequências sérias. “A criança quer ser motivo de orgulho para os pais. Ela toma o que eles dizem como verdade absoluta, mesmo que isso prejudique sua saúde, sua relação com a comida ou até gere um transtorno alimentar e uma distorção da imagem corporal.”
Criar um ambiente alimentar saudável: o primeiro passo para mudar a relação da criança com a comida
Maria Clara enfatiza que a relação da criança com a alimentação começa no dia a dia, nas atitudes e no ambiente que os pais oferecem durante as refeições.
“Criar um espaço acolhedor, em que a criança possa experimentar diferentes alimentos e sentir os sabores, é essencial para que ela desenvolva hábitos saudáveis e não associe a comida à tensão, culpa ou obrigação.”
Muitas vezes, os pais carregam crenças ou preconceitos sobre determinados alimentos, como açúcar ou gordura, e acabam impedindo que a criança tenha contato com eles, o que pode gerar ansiedade, resistência alimentar e hábitos pouco saudáveis.
“É fundamental que a criança tenha a oportunidade de provar alimentos variados e explorar diferentes sabores”, afirma.
Ela complementa que os pais devem orientar sem impor. “O cuidador decide horários e locais das refeições, mas a criança deve escolher quanto vai comer. Isso ajuda a desenvolver autonomia, confiança e uma relação positiva com a alimentação.”
A importância de buscar ajuda profissional
Maria Clara comenta que, diante da obesidade infantil, o primeiro passo é ouvir atentamente o diagnóstico do médico e compreender a situação do filho antes de tentar mudanças por conta própria.
Muitas vezes, os pais ficam ansiosos e acabam impondo ajustes alimentares de forma imediata, criando conflitos dentro de casa. Ela destaca que contar com profissionais qualificados, como nutricionistas e psicólogos, ajuda a transformar esse processo em algo positivo e seguro.
“Antes de ficar ansioso e tentar fazer tudo sozinho, é importante procurar orientação de médicos, nutricionistas e psicólogos para entender a situação e planejar ajustes de forma adequada”, afirma.
Maria Clara reforça que o acompanhamento profissional garante que as mudanças ocorram sem culpa e com afeto. “Saber que há profissionais capacitados cuidando da alimentação, do bem-estar e do desenvolvimento emocional da criança ajuda a criar um ambiente saudável e leve dentro de casa. É um caminho gradual, com paciência, amor e cuidado, e no final tudo tende a dar certo.”
Ela ainda alerta sobre o risco de discursos parentais pesados: “Não seja você a pessoa que impõe um discurso rígido ou cheio de cobranças. Isso não ajuda e pode atrapalhar o desenvolvimento de hábitos saudáveis. Sempre busque apoio de profissionais quando houver dúvidas ou receios.”
Conclusão
A relação da criança com a alimentação e com o próprio corpo é profundamente influenciada pelo ambiente doméstico e pelo discurso dos pais. Comparações, cobranças ou classificações de alimentos como “ruins” podem gerar ansiedade, compulsão e distorções na percepção corporal. Por outro lado, criar um espaço acolhedor, permitir que a criança experimente diferentes alimentos, respeitar sua autonomia e buscar orientação de profissionais qualificados, como médicos, nutricionistas e psicólogos, são passos fundamentais para construir hábitos saudáveis de forma positiva.
O cuidado, a empatia e a atenção ao comportamento alimentar são aliados indispensáveis para que pais e cuidadores promovam o bem-estar físico e emocional dos filhos. Com paciência, afeto e orientação adequada, é possível transformar a alimentação em uma experiência prazerosa, fortalecendo hábitos duradouros e saudáveis.
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