Dados do IBGE alertam sobre a crise na saúde mental de crianças e jovens
- Patricia Vieira e Maria Clara Vieira

- há 3 dias
- 6 min de leitura
A psicanalista Patricia Vieira comenta o impacto do isolamento, das redes sociais e da falta de diálogo dentro de casa. Acompanhe!
O IBGE divulgou, em março de 2026, uma pesquisa que evidencia um quadro alarmante relacionado à saúde mental de crianças e adolescentes no Brasil.
Os dados revelam índices elevados de tristeza persistente, ansiedade, depressão e sentimentos de desesperança entre jovens de diferentes faixas etárias. Segundo o levantamento, 30% dos estudantes de 13 a 17 anos relatam tristeza constante, enquanto 20% dos adolescentes entre 10 e 19 anos vivenciam algum transtorno mental.
O estudo também aponta um aumento de 3000% nos casos de ansiedade e depressão na última década e mostra que 18,5% dos jovens afirmam pensar com frequência que a vida não vale a pena ser vivida.
Esses números dialogam diretamente com o cotidiano dos profissionais da saúde mental, que observam uma demanda crescente por atendimento, tanto na rede pública quanto na privada. Ao mesmo tempo, famílias relatam mudanças significativas no comportamento dos filhos, como: apatia, isolamento social, medos intensos e elevada ansiedade diante de situações comuns. Surge então a pergunta central: o que está acontecendo com nossas crianças e adolescentes?
Respondendo essa questão, a psicopedagoga e psicanalista Patricia Vieira oferece uma análise fundamentada em sua experiência clínica e nas evidências disponíveis, ampliando a compreensão sobre os fatores que atravessam a saúde mental infantojuvenil hoje. Confira seu breve currículo:
Patricia Vieira – Pedagoga formada pela PUC-SP, psicopedagoga pelo Instituto Sedes Sapientiae e psicanalista, membro efetivo do Departamento de Formação em Psicanálise do mesmo instituto.
Pós-graduada em Transtornos Alimentares pelo Instituto ESPE, Patricia também é organizadora do livro Medicação e medicalização e coautora de A escola para todos e para cada um e Campos clínicos, educacional e social: o pensamento de Silvia Bleichmar.
Atua como psicanalista clínica, supervisora clínica em psicanálise e professora do primeiro ano do curso Fundamentos da Psicanálise e sua Prática Clínica do Departamento de Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.
Para facilitar sua leitura, dividimos nosso texto nos seguintes tópicos:
Boa leitura!
Pandemia, redes sociais e a formação do mal-estar contemporâneo
De acordo com Patricia, é possível pensar que a pandemia de covid-19, que ocorreu em 2020, seria a principal causa desse resultado apontado na pesquisa. Afinal, aquele contexto caótico interferiu na vida psíquica e trouxe consequências que se refletem até hoje, como o isolamento social que impôs às crianças uma interrupção da vida escolar e dos processos de aprendizagem.
“Há também um assunto que é pouco falado em nossa cultura que adentrou em nossos lares de maneira assustadora: a morte. Muitas famílias perderam parentes vítimas do vírus e se viram às voltas ao mesmo tempo com o luto e com a sobrevivência. Enfim, vivemos um tempo de completo desamparo e grandes incertezas”, complementa.
Ela entende que a pandemia tenha influenciado o atual cenário, porém ressalta que há outro fator que merece menção: a dependência das redes sociais.
“Já são de conhecimento público várias publicações que reforçam a influência que as postagens do mundo virtual provocam no humor. Sabemos também que atualmente temos os adictos em redes sociais. Em geral, estamos sempre atrás de algo que nos falta, desde uma roupa específica até o segredo da juventude eterna e do corpo perfeito”, comenta.
É exatamente aí que as imagens de vídeos perfeitos encontrados em reels, stories e posts incidem, na promessa ou na constatação que alguém tem aquilo que o indivíduo não possui.
“As pessoas fazem o possível e o impossível para conquistar o que falta ou, então, ficam infelizes, frustradas e incompletas para o resto de suas vidas. É exatamente esse tom fatalista que escutamos dos pacientes na clínica.”
A profissional enfatiza que a frustração é uma velha conhecida no universo da vida mental e que, de tão conhecida, tornou-se banalizada. “Todos sabemos que o enfrentamento com ela é necessário para a constituição da subjetividade. É tão necessário quanto difícil de manejar por parte dos adultos e das crianças”.

Entre a majestade e a falta: o papel do outro na constituição do sujeito
Patricia observa que, desde a origem, o ser humano depende do outro. “Um pequeno bebê, ainda desprovido de um aparato que o possibilite sobreviver sozinho, necessita de ações específicas que garantam a sua vida tanto do ponto de vista biológico quanto afetivo. Portanto, é na relação com o outro que nos constituímos e nos desenvolvemos”, pontua.
De acordo com ela, esse “outro” pode ser entendido aqui na função materna e paterna (não necessariamente o pai e a mãe biológicos) e no ambiente em que este ser está inserido.
“Inicialmente, é importantíssimo que essa relação se sustente plenamente, que o bebê tenha suas necessidades atendidas e suas demandas acolhidas. Não é à toa que Freud chamava o recém-nascido de ‘sua majestade, o bebê’. É nesse contexto de vossa majestade que o bebê está imerso durante os primeiros meses de vida”, explica.
Porém, a psicanalista ressalta que também é importante existirem falhas nesse percurso, ou seja, que o seio não apareça imediatamente após o choro e o esperneio. Ela resgata o conceito de Donald Winnicott, pediatra e psicanalista inglês, que cunhou o termo “mãe suficientemente boa”: “Essa expressão acabou sendo banalizada, mas seu real significado define a mãe que provê, mas que também deixa faltar.”
É a partir desse ponto que a profissional busca aprofundar o entendimento sobre o cenário atual de depressão e desejo de morte observado nos jovens da pesquisa.
“Faltar, falhar e frustrar não é a mesma coisa que abandonar. Estar ao lado do bebê dando-lhe outras vias para que ele se organize, oferecendo maneiras de aliviar a angústia sem ser ofertando o objeto pedido é a tarefa que se impõe aos pais logo de início e que perdura ao longo da vida”, afirma Patricia.

Como o vício virtual mascara o buraco nas relações familiares
Patricia alerta que tanto a pesquisa quanto a prática clínica mostram que parte das crianças e adolescentes se queixa de não ser ouvida pelos pais.
Isso porque cerca de 26,1% disseram sentir-se constantemente desassistidos, sentindo que ninguém se preocupa com eles. “Isso significa que temos ido de um extremo ao outro, de uma provisão maciça para um abandono. As angústias de nossos jovens têm proporcionado o desamparo e a tristeza profunda e constante em quem ainda está em desenvolvimento”.
As razões para que os adultos tenham caminhado por essas extremidades, segundo expõe, incluem as exigências do trabalho e da sociedade. No entanto, revela: ao que tudo indica, adultos também não estão dando conta das próprias frustrações.
“Não é estranha a imagem de famílias inteiras soterradas em seus celulares, abduzidas e hipnotizadas por vídeos, alheios ao mundo real. Basta frequentar um restaurante, um shopping ou ponto de ônibus para perceber que essa cena estará lá presente, tapando os buracos e criando a ilusão de que estamos convivendo.”
Patricia não demoniza os pais ou as redes sociais, mas analisa que o tecido social se esgarçou e com ele a sustentação para o amparo tanto dos adultos como das crianças e dos adolescentes. “Há um buraco ainda maior que nos obriga a ter cuidado antes de sairmos apontando culpados nessa longa e desconhecida batalha que é a vida.”
Como uma possibilidade de saída ou de respiro entre uma luta e outra, ela recomenda o diálogo, a conversa não somente acolhedora, mas aquela que faz pensar, que mobiliza o sujeito a se encontrar com suas faltas em vez de evitá-las.
“Todo sintoma, seja ele social ou individual tem uma história e remete ao inconsciente do sujeito e, portanto, é necessário que se possa falar, dar um sentido para o sofrimento ressignificando dentro da própria narrativa. Por isso, é fundamental a busca pelo profissional da saúde mental capacitado para ouvir e estar junto nessa caminhada, assim como a mãe suficientemente boa de Winnicott.”
Conclusão
Em sua análise dos dados do IBGE, Patricia nos mostrou que reflexos da pandemia de covid-19 ainda afetam nossos jovens e crianças, que cedo tiveram que lidar com o isolamento e o luto. Da mesma forma, a idealização do que é visto nas telas segue gerando frustração em pais e filhos. Assim, o diálogo se apresenta como principal aliado para reverter a realidade preocupante que se revela em pesquisas e no consultório.
Se o seu filho está passando por um momento difícil, com sinais de tristeza ou ansiedade, saiba que vocês não precisam enfrentar isso sozinhos. O Espaço Serivê está de portas abertas com profissionais preparados para ouvir e apoiar sua família.
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