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Excesso de peso em crianças e adolescentes: o que o corpo pode dizer sobre a relação com a comida

Foto do escritor: Patricia Vieira e Maria Clara Vieira
Patricia Vieira e Maria Clara Vieira
há 4 dias
8 min de leitura

A obesidade na infância e na adolescência envolve mais do que hábitos alimentares: a relação com o corpo, as emoções, a rotina familiar e a própria experiência de comer também fazem parte dessa discussão. Saiba mais!

O excesso de peso em crianças e adolescentes avança em diferentes regiões do mundo e acende um alerta para a saúde das novas gerações. Dados recentes do Atlas Mundial da Obesidade apontam que, em 2025, 177 milhões de crianças e adolescentes entre 5 e 19 anos viviam com obesidade no mundo. A projeção é que esse número chegue a 228 milhões até 2040.

Os dados não incluem os casos de sobrepeso isoladamente. Quando sobrepeso e obesidade são considerados em conjunto, o cenário é ainda mais preocupante. No Brasil, cerca de 17 milhões de crianças e adolescentes de 5 a 19 anos vivem com excesso de peso, colocando o país entre os dez com maior número de casos no mundo. Desse total, 6,6 milhões são crianças de 5 a 9 anos e 9,9 milhões são adolescentes de 10 a 19 anos.

Esse avanço evidencia uma epidemia que vem se expandindo desde 2010 e coloca em discussão não apenas os hábitos alimentares e o estilo de vida, mas também os aspectos emocionais envolvidos na relação de crianças e adolescentes com o próprio corpo e com a alimentação.

Patricia Vieira, psicopedagoga e psicanalista do Espaço Serivê, aborda os fatores que podem estar por trás desse avanço e ajuda a compreender as relações entre excesso de peso, subjetividade e saúde mental. Confira seu breve currículo:

  • Patricia Vieira – Pedagoga formada pela PUC-SP, psicopedagoga pelo Instituto Sedes Sapientiae e psicanalista, membro efetivo do Departamento de Formação em Psicanálise do mesmo instituto. 

  • Pós-graduada em Transtornos Alimentares pelo Instituto ESPE, Patricia também é organizadora do livro Medicação e medicalização e coautora de A escola para todos e para cada um e Campos clínicos, educacional e social: o pensamento de Silvia Bleichmar.

  • Atua como psicanalista clínica, supervisora clínica em psicanálise e professora do primeiro ano do curso Fundamentos da Psicanálise e sua Prática Clínica do Departamento de Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.

Para facilitar sua leitura, dividimos nosso texto nos seguintes tópicos:

Boa leitura!

Excesso de peso em crianças e adolescentes: um problema que vai além da balança

Historicamente associado aos países ricos, o excesso de peso em crianças e adolescentes passou a avançar também de forma expressiva nos países de renda média. O cenário está relacionado ao tamanho dessas populações e às rápidas transformações nos sistemas alimentares.

Durante décadas, o foco esteve principalmente no combate à desnutrição e ao baixo peso. Hoje, porém, o desafio é mais complexo: fome, deficiência nutricional e obesidade coexistem nos mesmos países, comunidades e, muitas vezes, dentro de uma mesma família. “Nesse contexto, a obesidade não pode ser compreendida apenas como resultado de escolhas individuais, mas também como reflexo das condições sociais e do ambiente alimentar”, afirma Patricia.

A profissional comenta que crianças e adolescentes em desenvolvimento já apresentam sinais de doenças como hipertensão, hiperglicemia e problemas hepáticos. Para ela, também é preciso considerar as consequências emocionais que acompanham o excesso de peso desde os primeiros anos de vida.

“O impacto desses números não diz respeito somente à saúde física, mas também à saúde mental de quem precocemente terá que lidar com preconceito, baixa autoestima e quadros depressivos graves.”

Sendo assim, uma questão se coloca: se houve tantos avanços nas pesquisas, nos medicamentos e nos tratamentos, por que os números continuam crescendo?

“Muitos caminhos são possíveis para iluminar a nossa reflexão na busca dessa pergunta. Um deles passa pelas próprias mudanças na rotina das crianças e dos adolescentes.” Entre os fatores associados ao crescimento da obesidade infantil estão o aumento do sedentarismo, o maior tempo de exposição às telas, o consumo exagerado de alimentos ultraprocessados e a diminuição de espaços urbanos seguros para a prática de atividades físicas.

Para a psicanalista, discutir o excesso de peso em crianças e adolescentes exige considerar um conjunto de fatores que ultrapassa as escolhas alimentares individuais. “O ambiente em que esses jovens vivem, os hábitos construídos no cotidiano e as experiências relacionadas ao próprio corpo também fazem parte dessa discussão.”


Adolescente com excesso de peso , comendo enquanto usa o celular. Foto: Magnific.
Olhar para o corpo é também compreender a história por trás dele.

Como a psicanálise compreende a obesidade

Sob o olhar da psicanálise, falar sobre obesidade também significa ampliar a compreensão sobre o próprio corpo. Enquanto a medicina estuda o organismo a partir de sua anatomia e fisiologia, considerando necessidades biológicas como fome, sono e sede, a psicanálise propõe uma leitura que inclui a dimensão psíquica.

“O corpo não se reduz ao organismo biológico. A psicanálise define o corpo como uma construção psíquica afetada pela linguagem, pelos afetos e pela relação com o outro. Ele é um corpo erógeno e movido pela pulsão”, observa Patricia.

Essa compreensão também considera a história do sujeito e as relações que participam da constituição de sua subjetividade. Na perspectiva psicanalítica, essa história começa a ser construída antes mesmo do nascimento.

“Mesmo antes de nascer, o bebê já é falado pelos pais e sua subjetividade está aí ancorada nessas palavras que marcam o corpo e que posicionam este pequeno ser no mundo”, ressalta.

A partir dessa perspectiva, os sintomas corporais podem ser compreendidos como uma forma de expressão de conflitos que nem sempre encontram espaço nas palavras. Experiências de sofrimento, traumas e conteúdos inconscientes podem aparecer por meio do corpo.

“Na psicanálise, os sintomas do corpo são entendidos como uma forma de linguagem. Quando o sofrimento psíquico, os traumas ou os conflitos inconscientes não encontram caminhos para ser expressos em palavras, eles se inscrevem na carne. O corpo passa a manifestar fisicamente aquilo que a mente não conseguiu processar.”

Quando a discussão chega à alimentação, a relação com a comida deixa de ser vista apenas pela perspectiva da necessidade fisiológica. Transtornos alimentares e obesidade podem estar relacionados a diferentes respostas diante de vazios, angústias e exigências presentes na experiência do sujeito.

“Essas condições são frequentemente interpretadas como respostas do corpo a um vazio ou a uma exigência do ambiente.”

No caso da obesidade, essa relação pode fazer com que o alimento passe a ocupar um lugar que vai além da satisfação da fome. O ato de comer pode estar associado à tentativa de lidar com situações de sofrimento que não encontram outras formas de expressão.

“Assim, o ato de comer pode funcionar como uma tentativa desesperada de tampar um vazio existencial, calar uma angústia ensurdecedora. Ficar refém de um ato que massacra impiedosamente aquele que come, seja um adulto ou uma criança.”

Nesse contexto, a compulsão alimentar aparece marcada pela repetição e pela dificuldade de interromper o comportamento mesmo diante das consequências que ele provoca.

“O mecanismo psíquico aqui presente é a compulsão alimentar, que funciona num ciclo que se repete exaustivamente: angústia insuportável leva ao ato de comer que, por sua vez, causa culpa e severa punição que termina por gerar mais angústia e o ciclo se repete infinitamente.”

A comida, então, pode assumir um lugar central na experiência do sujeito, deixando de responder exclusivamente à fome e passando a integrar uma dinâmica difícil de romper.

“O sujeito fica aderido ao objeto alimento, que não mais supre uma necessidade orgânica, num movimento repetitivo sem a possibilidade de tomar para si o próprio corpo e as demandas da vida. Essa é a sua existência.”

Essa leitura também modifica a forma de compreender a escuta clínica. No caso de uma pessoa com obesidade, considerar apenas os aspectos biológicos pode deixar de fora elementos relacionados à sua história, às relações estabelecidas desde os primeiros anos de vida e à maneira como a alimentação foi vivenciada nesse percurso.

“Portanto, ao escutarmos um paciente com obesidade tem que ter claro que não é apenas do corpo biológico que estamos nos referindo. Tem que se incluir o corpo erógeno e pulsional, ou seja, considerar a dinâmica psíquica que envolve marcas muito primitivas que remetem desde as primeiras experiências com o outro que o alimentou até a maneira como essa dupla lida com a alimentação.”

Essa perspectiva pode ser aproximada ainda da discussão sobre o ambiente alimentar apresentada pelo Atlas Mundial da Obesidade. A alimentação, nessa leitura, não envolve apenas a oferta de nutrientes, mas também os hábitos e as relações construídas em torno do ato de comer.

Adolescente lanchando e usando celular. Foto: Magnific.
A relação com a comida também envolve emoções, rotina e vínculos.

De que forma a rotina influencia a alimentação

O ambiente em que crianças e adolescentes fazem suas refeições também pode ajudar a compreender a relação que estabelecem com a comida. A rotina familiar, especialmente quando envolve diferentes responsáveis pelos cuidados ao longo do dia, merece ser considerada nessa discussão.

“Se essas crianças da pesquisa citadas no Atlas estão inseridas na classe social de renda média, pode-se imaginar que seus pais trabalham, que muitas vezes essas crianças ficam período integral na escola ou então em casas de parentes, como os avós, por exemplo.”

A rotina de trabalho dos pais e a permanência das crianças em diferentes ambientes ao longo do dia também podem interferir na maneira como as refeições são vivenciadas.

“Indo mais adiante em nossas hipóteses, o momento da refeição nem sempre é acompanhado por trocas afetivas, por conversas do dia a dia e, como todos sabemos, o que acompanha essas crianças são seus amigos virtuais eletrônicos, como tablets e celulares. Portanto, crianças e adolescentes muitas vezes nem sabem que comida eles comeram, simplesmente buscam saciar sua fome com o que é mais rápido e palatável.”

Para os pais, o desafio envolve conciliar as escolhas alimentares com as exigências da vida cotidiana. Entre responsabilidades profissionais e tarefas domésticas, a alimentação também pode acabar sendo delegada a soluções mais práticas.

“No lado dos pais fica sempre o dilema de saberem o que é certo, a busca pelo equilíbrio e a vida real. Eles são engolidos pelas tarefas domésticas e pela vida profissional, muitas vezes sem tempo para pensarem na própria alimentação, delegando essa tarefa a um terceiro, como marmitas, aplicativos e lanches.”

Dessa forma, a refeição pode perder parte de seu espaço como momento de convivência e de relação com a comida.

“A refeição tornou-se um momento descolado do afeto e do prazer. A comida virou grupos alimentares: proteína, carboidrato, gordura, e aquele que come nem sempre sabe o porquê está comendo.”

Por se tratar de crianças e adolescentes, essa realidade precisa ser considerada junto ao processo de desenvolvimento e às particularidades de cada família.

“A abordagem clínica tem que levar em conta o desenvolvimento que ainda está em processo, os mecanismos psíquicos envolvidos, além de orientação parental em relação à história, rotina e hábitos alimentares daquela família.”

A discussão sobre a obesidade infantil, portanto, não se restringe ao indivíduo. Ela também envolve condições sociais, familiares e institucionais que precisam ser consideradas nas estratégias de enfrentamento do problema.

“A obesidade infantil representa não apenas um problema de saúde individual, mas um desafio para o desenvolvimento social e econômico dos países. Implica numa abordagem integrada que combina políticas públicas, sistemas alimentares, sistemas educacionais e de saúde funcionando em parceria em prol da saúde física e mental das nossas crianças e adolescentes”, defende Patricia.

Conclusão

O excesso de peso em crianças e adolescentes exige um olhar que considere não apenas a alimentação e a saúde física, mas também a relação com o corpo, a rotina familiar e os aspectos emocionais envolvidos. Compreender essas diferentes dimensões é um passo importante para pensar em formas mais cuidadosas de prevenção e acompanhamento.

Quer conversar sobre essa questão? Clique aqui e entre em contato com o Espaço Serivê.


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